Estou cansada, já.
Normalmente o meu cansaço e declínio de empenho na minha actividade profissional tem início por altura do Carnaval. É um dos meus muitos defeitos. Tudo o que for mais arrojado e que implique mais trabalho e disponibilidade mental eu sei que tenho que fazer antes do Carnaval. A partir daí começa uma contagem decrescente até Junho/ Julho.
Este ano (não sei se já me esqueci do ano passado ou se realmente este ano está pior) sinto-me já demasiado cansada.
Luto contra as 5 horas diárias com aquelas crianças que me parecem ser sempre poucas, mas, simultaneamente, excessivas. Ando numa duplicidade interior terrível: por um lado uma vontade imensa de lhes ensinar e de os fazer descobrir uma série de coisas, um número enorme de maneiras de poder pensar, de lhes permitir sonhar com horizontes para além da barragem que se vê da porta da escola, mas, por outro lado, sinto um desespero, uma vontade incontrolável de sair sala e desaparecer sem avisar, uma necessidade de gritar até que a minha voz se ouça no céu. É que os miúdos conseguem ser tão interessantes como insuportáveis. Evidentemente que há sempre uns que nunca se aproximam dos extremos e outros que se colam mais a um dos extremos, mas, por acaso, não tenho nenhum caso de um miúdo que se encontre sistematicamente no extremo insuportável.
Às vezes fico cheia de vontade de ficar interminavelmente com aqueles alunos que têm mais dificuldade, de seguir passo a passo cada etapa, com calma e de ele fazer a descoberta progressiva até se ir libertadando dos apoios que, entretanto, vai precisando, mas é tão, tão difícil! Há sempre todos os outros que requerem atenção como se não houvesse mais ninguém dentro da sala, há os que fazem tudo muitíssimo depressa, mesmo que seja muito ou mais difícil, há que têm tanta ou mais dificuldade do que aquele que eu gostaria de ter sozinho e há ainda os que estão para destabilizar tudo, independentemente de terem ou não alguma dificuldade. Aí, instala-se o caos e é o (meu) desespero total.
A vontade que tenho de desancar à pancada é uma coisa que até a mim me mete medo e, nessa altura, sinto que o meu cérebro está a sofrer um desequilíbrio que não sei até que ponto poderá influenciar a minha futura sanidade mental. Então, respiro fundo, pego numa garrafa de água, bebo e, pausadamente, mantenho-me em pé, algumas vezes com as mãos juntas em forma de telhado bicudo junto aos meus lábios e em tom reflexivo e extremamente desiludido, conto interior mente até 10, 100, ... ou seja o meu silêncio provca alguma inquietação preocupante nos miúdos e lá há um caridoso que começa a dizer «Calem-se! Não vêem que a professora quer falar?!» Naqueles breves instantes em que o meu silêncio faz recuperar um apaziguamento discente, a minha mente passa n curtas metragens de situações tão diversas quanto seja possível imaginar. E, depois de mais uns poucos «Calem-se! Não vêem que a professora quer falar?!» e de todas as atenções passarem a estar centradas em mim, volto à sala de aula com uma mentirosa tranquilidade que até a mim me engana.
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Já fui à Dinamarca! Frio intenso que se sente sem dúvida nenhuma, mas conforto enorme assim que se entra em casa, na escola ou noutro qualquer edifício.
Nyborg foi a localidade onde se realizou o Seminário de Contacto do Projecto Comenius.
Há muito para contar, mas é incrível como não tenho tido tempo! Parece que estive fora de casa 1 mês e que um milhar de coisas se acumularam para fazer em todos os cantos. Ainda não consegui actualizar todos os afazeres; daí não deixar escorregar as emoções/ impressões nas teclas do Margem de Erro.
Ficou muita coisa registada AQUI e foi tudo fantástico.
Adorei visitar a escola pública. Fico sempre com uma inveja desgraçada daqules ambientes e dinâmicas. Parece que tudo há-de correr bem. Os espaços são extremamente acolhedores e isso para mim já uma sensação enorme, pois o espaço onde trabalho não o é. Os profissionais aparentam empenho e dedicação. Enfim...
Esta ida à Dinamarca e este iniciar de projecto Comenius (oxalá a candidatura da minha escola seja aceite) funciona para mim como uma esperança, como uma estratégia de luta contra o pessimismo quotidiano, como prova de que é possível fazer melhor. Acho que é uma maneira de escapar à condenação local (direi até nacional) do paradismo.
Procurar desafios é a minha maneira de sobreviver numa sociedade que (sinto) tende a acomodar-se, que faz pelo mínimo.
Foi tudo excelente. A descoberta dos locais, o ressuscitar do inglês, o encontro co portugueses e estrangeiros, todos desconhecidos, o apreciar as ideias alheias, a organização dos grupos de trabalho, a comida e, claro, a minha romate cipriota.
Espanha, Dinamarca, Chipre e Reino Unido são os parceiros da minha escola. Travelling Stories, o título do nosso trabalho. Agora é só aguardar pelos prazos certos e pelas decisões certas (para nós).